Poetisa Lúcia Daloce participou do concurso na modalidade crônica e conquistou terceiro lugar

A bandeirantense e poetisa Lúcia Daloce participou recentemente do ‘Prêmio Arte e Literatura USP 60+’, promovido pelo Programa USP60+, da Universidade de São Paulo. Objetivo do concurso, segundo a organização foi de promover e valorizar as habilidades artísticas do público 60+ a partir dos eixos temáticos das artes visuais e da literatura. A poetisa conquistou o terceiro lugar na Modalidade Crônica com tema livre.

Segue a crônica premiada.

Celeiro de lembranças


Balançando na ponta da corda, o balde descia às entranhas do velho poço. Na obrigação da tarefa, alguém suspirava ante o trabalho exaustivo. Ao som insistente do sarilho, a água retirada era estocada nas bacias, nas talhas, nas latas enfileiradas e no tacho grande que se usava para ferver a roupa suja de terra vermelha, num fogão improvisado com tijolos no meio do quintal.
No campo, o sol abrasava as camisas de algodão, os chapéus de palha e a terra que se lavrava.
Até hoje me recordo de vários fatos vivenciados por mim, ou contados pelos mais velhos, de um tempo confinado na memória e que vem à tona quando o assunto de todos ao redor da mesa é apenas saudade…
Nos primórdios da história de minha família, formada por imigrantes italianos, laboravam os adultos, laboravam as crianças. Trabalho infantil, mesmo leve, era uma força a mais e não podia ser desprezado. Nem era assunto polêmico. Elas também tinham que realizar suas tarefas sem reclamar. Entretanto, o horário da escola era fielmente respeitado. Mesmo em época de colheita todos estudavam. No clã ninguém cresceu analfabeto. Minha mãe, a caçula da turma, por exemplo, aos quinze anos, tendo apenas o quarto ano primário, tornou-se a “professorinha” do sítio e, graças a sua aguçada inteligência, escapou da enxada. Só depois de casada e morando na cidade, conseguiu concluir seus estudos.
Segundo o que minha mãe contava, a vida na roça era mais ou menos assim:
Na lavoura, após os primeiros trabalhos, todos faziam uma pausa para o almoço debaixo de uma velha paineira: galinha, polenta, arroz, feijão e quiabo. Às vezes, minha mãe não comia a carne, com pesar pelas franguinhas decapitadas, antes ciscando alegremente no chão do imenso quintal — afetos que, aos adultos, não passavam de idiotices de criança.
Os porcos disputavam a comida na chafurda, sem saber que as suas carnes, em breve, ficariam atoladas nas latas de gordura — provisões bem guardadas nas prateleiras da despensa.
Nas redondezas, aos finais de semana, aconteciam os bailes e jogos de futebol, nos quais os moços e moças podiam iniciar um namoro que, geralmente, acabava em casamento, estreitando ainda mais os laços entre as famílias da zona rural. Desse modo, através dos inúmeros batizados, “quem não era parente tornava-se compadre”.
Não havia televisão, apenas um rádio sobre a velha escrivaninha, sintonizado na Voz do Brasil. Nenhum barulho ou brincadeira era permitida pelo chefe da família (meu avô), sentado à frente daquele único aparelho de comunicação, admirando-o como se fosse um tesouro. Com ar taciturno ouvia as notícias e, se não gostasse de um determinado assunto, esbravejava resmungando alguma coisa que ninguém entendia.
De vez em quando, aos domingos, era dia de pescaria no rio Paranapanema, não muito distante da propriedade.
Quando criança, eu também participei dessas pescarias domingueiras, realizadas junto com os parentes que ficaram residindo no sítio, após a vinda dos meus pais para a cidade, e que também fazem parte das minhas recordações desses dias risonhos.
Enquanto arrumávamos os apetrechos, alguém regrava:
— Tomem cuidado! O rio é perigoso! Voltem antes de escurecer…
Munidos de varas, anzóis, minhocas nas latas e merenda no embornal, eu e os outros primos e primas íamos felizes da vida para o magnífico passeio.
Com nossas varas de pescar, sentados nas barrancas do rio, ficávamos atentos, mas os peixes nos enganavam: mordiscavam as iscas e depois fugiam apressados.À noite, risos e conversas aumentadas sobre a “grande pescaria”! Uma voz grave, então, ralhava declarando o fim da algazarra. Luz apagada, silêncio e escuridão, não fosse a lua que pelo céu vagava. Ao alvorecer, para os que ainda moravam no sítio, a lida recomeçava com café cheiroso, “pão feito em casa” e broa de fubá.
Dessas minhas idas ao sítio, lembro-me ainda da velha tulha, construída no desnível do terreno. Na parte superior do pavimento, havia uma passarela ligando-a com o terreirão de café. A colheita era ensacada e guardada em pilhas ameaçadoras, até o preço de venda melhorar — o que nem sempre acontecia. Explorar aquela tulha escura era uma grande aventura.
Hoje, ao abrir as velhas portas do meu celeiro de lembranças, ainda me vejo colhendo as frutas dos pomares, brincando à sombra dos cafezais em flor e posso sentir o gosto desses tempos memoráveis, permeados de inocência e simplicidade.
Enfim, sinto que ainda vive em mim a criança feliz de outrora, sentindo o encanto da vida naquela infância querida em meio a sonhos floridos nas terras do Paraná!

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