Dia 10 de Setembro é a data mundial de prevenção ao suicídio. Denominado ‘Setembro Amarelo’, o mês trata em enfatizar a campanha de conscientização e luta no combate ao ato violento de tirar a própria vida. No Brasil, o movimento de prevenção começou com o Centro de Valoriza da Vida (CVV), com telefone Disque 188, e já existe cerca de 50 anos. Neste período, muitas vidas já foram salvas.
Para responder alguns questionamentos, a terapeuta emocional e voluntária do CVV, Cristie Ochiai, explicou sobre a campanha e o tema suicídio.

Folha do Norte PR – Por que é tão difícil falar sobre o suicídio?
Cristie Ochiai – Esse assunto é um tabu. As pessoas ficam desconfortáveis em falar sobre isso, como se só acontecesse com outras famílias, nos noticiários, uma realidade distante. Tal desconforto vem principalmente da dificuldade em falar sobre a morte, que é um processo natural pelo qual todos passarão. Entretanto, falando sobre o suicídio, para algumas pessoas, a morte deveria ser renomeada para ‘renascimento’. Devido a um conceito espiritual, alguns acreditam que seja um renascer espiritual. Ou seja, deixa-se o corpo, como quem deixa um cavalo de batalha que teve a sua utilidade, e depois, passa a viver outra realidade. Na nossa cultura evitamos falar sobre a morte porque ela é um conceito que nos traz a ideia da separação, muitas vezes encarada como definitiva e isso, traz sofrimento – a dor da separação. Contudo, a realidade do suicídio está aí. Sempre batendo à porta, rondando.
FNPR – O número de casos de suicídio é crescente, é alto? Qual público-alvo mais acometido?
CO – Um estudo da Universidade de Campinas (Unicamp) constatou que pelo menos 17% das pessoas já pensou em dar fim à própria vida. E os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que a cada 40 segundos, uma pessoa comete o suicídio e ocorre uma tentativa a cada 3 segundos. O índice é altíssimo entre jovens na faixa de 15 a 29 anos. Mas entre idosos também, pois estes acham que são um peso na vida dos outros, que não tem mais nada a contribuir, ou por terem a saúde comprometida. No meio dos jovens, o índice de suicídio entre os meninos é mais alto, e as meninas fazem mais tentativas.
FNPR – Quais fatores que levam uma pessoa a atentar contra a própria vida?
CO – Existem vários motivos. O principal fator é o transtorno mental. Quase 100% das pessoas que tentam o suicídio tem algum tipo de transtorno mental, dentre eles, depressão e ansiedade. E muitos desses transtornos nem foram diagnosticados por desconhecimento, por preconceito, por muitas vezes serem considerados ‘frescura’. O uso de álcool e drogas também são outras razões, pois essas substâncias podem fazer diminuir o autocontrole e aumentar assim a impulsividade e a violência. O bullying, que acontece muito nas escolas, contribui para que os jovens tenham ideações suicidas. Isto porque a autoestima comprometida, a insegurança e a angústia geram sentimentos de inadequação, de falta de pertencimento ao grupo e de rejeição.
Além desses fatores, há também as desilusões amorosas, problemas familiares, traumas emocionais (principalmente os abusos) e diagnósticos de doenças. E por falar em abusos, em torno de 70% das pessoas já sofreram abuso de algum tipo.
FNPR – É possível prevenir as tentativas de suicídio?
CO – Felizmente, sim. Estima-se que 90% dos casos de suicídio podem ser prevenidos se houver ajuda voluntária ou profissional. E no Brasil nós temos o Centro de Valorização da Vida (CVV). Basta ligar para o número 188 e sempre haverá um voluntário treinado para oferecer apoio emocional, 24 horas por dia, todos os dias da semana. Vale lembrar que a ligação é sigilosa e a pessoa não precisa se identificar para ser atendida. O número da pessoa que está ligando também não aparece.
FNPR – É fácil se voluntariar e fazer parte do voluntariado de atendimentos no CVV?
CO – Para ser voluntário, basta entrar no site www.cvv.org.br e preencher um cadastro. Feito isso, o candidato recebe um telefonema, quando é feita uma entrevista. Após, o candidato a voluntário passa por um treinamento onde aprende sobre a filosofia e as regras do CVV, e como atender as pessoas que precisam de ajuda. Qualquer pessoa pode se candidatar, independentemente da atividade que exerça. Basta ter disponibilidade de 3 horas por semana, vontade de ajudar e muito. Além de ter muito amor fraterno para oferecer aos que necessitam de ajuda.
FNPR – Gostaria deixar suas considerações finais?
CO – Estamos vivendo tempos em que os relacionamentos estão ficando muito distantes. Faltam olhos nos olhos, faltam conversas cara a cara, falta o toque. Viramos experts em usar a tecnologia, mas estamos ficando empobrecidos no modo como nos relacionamos. Isso agrava sentimentos de solidão e a solidão aumenta em 15% o risco de morte precoce. Então, se você está precisando conversar com alguém, saiba que sempre haverá alguém disposto a conversar, a oferecer apoio, um ombro amigo. E se você sentir que não há esse alguém, ligue para o CVV (disque 188). E talvez você seja a pessoa que pode ajudar alguém a enxergar uma luz no fim do túnel.
Não deixe para depois, para dar um telefonema para alguém perguntando se está tudo bem. Não deixe para depois, para visitar um amigo. Não deixe para depois, para oferecer ajuda. Toda vida é importante. A sua vida é importante. VOCÊ é importante. Uma das coisas que mais me deixaram atônita nesta vida, foi um dia ter ouvido de uma pessoa muito querida: “Que bom que hoje eu estou aqui conversando com você, porque eu tinha decidido que hoje seria o último dia da minha vida”.
Há muitas pessoas sofrendo em silêncio. Há muitas pessoas sofrendo e nos dando indícios que precisam de ajuda.




