
SEXTA PARTE
Walter de Oliveira*
Após a folga imposta pelos festejos carnavalescos, voltamos à nossa viagem no tempo e na história, quando hoje, a exemplo das edições anteriores, continuaremos a listar gestores e legisladores.
- c) Eleições de 1959 – Prefeito: José Mário Junqueira. Natural da portentosa e pulsante cidade de Ribeirão Preto (e por isso chamada de “Califórnia brasileira”), veio para Bandeirantes no início dos anos 50, quando se tornou dono da Fazenda Santa Rosa (hoje propriedade da família Ferro e sobre parte da qual acha-se o Resort Morro dos Anjos, uma audaciosa iniciativa turística e de lazer, com vários setores já em pleno funcionamento). Procedente de uma tradicional região de cafeicultores, foi nesse segmento que ele aqui se dedicou e ficou conhecido, sobretudo por ser uma pessoa dotada dos melhores modos de tratar com quem quer que fosse, o que somado a uma rara simpatia pessoal, faziam-no figura bem aceita em todo ambiente que chegasse.
Além dos já referidos atributos, José Mário Junqueira, de bom porte físico, era também dono de uma boa cultura e dispunha de livre trânsito com figuras de renome nos altos círculos político-administrativos. Resultado: em poucos anos, era escolhido como diretor do então poderosíssimo IBC – Instituto Brasileiro do Café, extinto juntamente com o IAA – Instituto do Açúcar e do Álcool, no governo de Fernando Collor de Melo. Integrante do partido União Democrática Nacional (UDN), ele concorreu com Jamil Fares Midauar, do Partido Social Democrático (PSD) e foi vencedor por uma diferença de 1.187 votos, num total de 4.075. Há, porém, que considerar que José Mário Junqueira contava com o apoio do seu partido, UDN, e com a ajuda das legendas PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), PDC (Partido Democrata Cristão) e PSP (Partido Social Progressista), dos respectivos candidatos a vereador, e das lideranças desses partidos, dentre as quais, Luiz Meneghel, proprietário da Usina Bandeirante, que já representava uma grande força eleitoral. Enquanto que Jamil, contava apenas com o apoio do seu partido, o PSD, dos seus candidatos a vereador, do ex-prefeito Dino Veiga e de Ildefonso Faria; ou seja, foi uma disputa bastante desigual. Todavia, como a política é dinâmica, se sujeita e se amolda às circunstâncias, veremos mais adiante nestes “fragmentos”, aliados de agora somando forças em fileiras opostas, e a vez de Jamil haveria de chegar.
Mas, em se falando de acontecimentos de maior significado para o bem-estar e interesse da população (que é – ou deveria ser – a finalidade da política), ainda não foi na gestão de José Mário Junqueira que se registraria algo de maior significado. E isso, não por falta de seu empenho, senão por conta das dificuldades também instaladas nas esferas superiores de governo, por motivos vários, dentre os quais, inclementes e prolongadas estiagens. Passado algum tempo após o término de sua gestão, Junqueira vendeu a sua fazenda para adquirir uma outra no sudoeste do estado do Paraná e, segundo nos consta, voltou a residir em Ribeirão Preto, sua terra natal.
Vereadores eleitos: Luiz Meneghel (PTB), José Alves Machado (PTB), Roosevelt de Oliveira Chueire (PDC), Francisco Teixeira Ribeiro (UDN), Benedito Bernardes de Oliveira (UDN), Massaaki Kimura (UDN), Vacieli Jaciura (UDN), Antônio Ranazzi Bentivenha (PTN), Dino Veiga (PSD), Luiz Ufei Hasegawa (PSD), Olívio Mioto (PSD) e Ildefonso Faria (PSD).
Com a permissão dos leitores, impõe-se-nos fazermos os dois seguintes registros:
O primeiro se refere ao vereador Olívio Mioto. Um homem com as mãos calejadas pelo diário manejo da enxada e de outras rudimentares ferramentas (usadas no duro, mas abençoado, amanho da terra), Olívio era o mais fiel e irretocável exemplo do homem da roça. A partir da simplicidade que marca o homem do qual Guimarães Rosa disse ser “antes de tudo um forte” (Grande Sertão: Veredas), e jamais tendo ido além de algumas aulas noturnas com a dedicada professora da escola rural, é difícil, sobretudo para quem, como nós, que fomos honrado por tê-lo por par na Câmara Municipal, compreender um tal e tamanho espírito de altruísmo e solidariedade: mourejar, sob o sol escaldante e inclemente, e mal este se posto, rumar para a cidade, cobrindo uma distância de vinte ou mais quilômetros (ida e volta) entre a sua casa e a cidade, para estar presente às reuniões da câmara, que eram realizadas de segunda a quinta-feira; e isso, durante os seus longos vinte e nove anos de vereança. Não era fácil. As estradas eram as mais precárias, e se chovia, vencidas com dificuldade e graças ao habilidoso motorista do Jeep 1951 da Prefeitura Municipal, que ia buscá-lo e levá-lo de volta, única contrapartida que recebia do poder público. Mas fazia gosto ver a sinceridade e genuinidade de seu devotamento no cumprimento da nobre missão que seus eleitores lhe confiaram, a qual implicava também na cobrança de um mínimo de assistência da prefeitura no tocante à saúde e ações conexas. Para estas (da saúde, como internamentos em Curitiba), ele se valia da grande e estreita amizade que desfrutava com o Comendador Luiz Meneghel e seus filhos, o que se repetia com a família Zambon.
O segundo registro, se refere ao vereador Antônio Ranazzi Bentivenha, também de saudosa memória. Secretário do Colégio Estadual Nóbrega da Cunha, Toninho Bentivenha, como era mais conhecido, era também professor na mesma casa escolar. Filiado ao Partido Trabalhista Nacional (PTN), jamais fez um comício ou pronunciamento em rádio. Ele redigia uma “carta ao eleitor”, em que expunha suas propostas de trabalho, mimeografava cópias e as entregava em envelopes com o nome e endereço dos eleitores. Elegeu-se, com grande votação, nas gestões de José Mário Junqueira, Moacyr Castanho e Luiz Meneghel, cujo último mandato foi terminado pelo suplente Floriano Nascimento Trindade, uma vez que faleceu em consequência de um tumor cancerígeno. Estamos falando de uma época em que o “interesse” em ser vereador era a “vontade” de colaborar com a cidade e com o bem-estar da população. A nocividade da pecúnia ainda não chegara ao arraial legislativo.
Continua.
* Walter de Oliveira, 92, articulista desta Folha, é bandeirantense, nascido em 1932