Franciscologia

Paz e Bem, meu amigo e irmão, vamos falar sobre o bem-aventurado Francisco.
Segunda Vida, de Tomás de Celano.

A contemplação do Criador nas criaturas.

Andava com respeito por cima das pedras, pensando naquele que foi chamado de Pedra. Quando usavam o versículo: “Vós me exaltastes sobre a pedra”, para dizer alguma coisa mais reverente, exclamava: “Sob os pés da Pedra Vós me exaltastes”. Aos frades que cortavam lenha proibia arrancar a árvore inteira, para que tivesse esperança de brotar outra vez. Mandou que o jardineiro deixasse sem cavar o terreno ao redor da horta, para que a seu tempo o verde das ervas e a beleza das flores pudessem apregoar o formoso Pai de todas as coisas. Mandou reservar um canteiro na horta para as ervas aromáticas e para as flores, para lembrarem a suavidade eterna aos que as olhassem.

Recolhiam do caminho os vermezinhos, para que não fossem pisados, e mandava dar mel e o melhor vinho às abelhas, para não morrerem de fome no frio do inverno. Chamavam de irmãos todos os animais, embora tivesse preferência pelos mais mansos. Quem poderia contar tudo? Pois toda aquela Fonte de bondade, que vai ser tudo em todos, já iluminava tudo em tudo para este santo. Assim, todas as criaturas procuravam retribuir o amor do santo e recompensá-lo à altura, com gratidão. Sorriam quando as acariciava, atendiam quando chamava e obedeciam quando mandava. Que vos agrade a relação de alguns. Quando esteve doente dos olhos e teve que permitir que o tratassem, chamaram um cirurgião. Ele veio com um ferro de cauterizar e mandou colocá-lo no fogo até ficar em brasa.

O bem-aventurado pai, animando o corpo já abalado pelo medo, assim falou com o fogo: “Meu irmão fogo, o Altíssimo te criou forte, bonito e útil, para emulares a beleza das outras coisas. Sê para mim propício nesta hora, sê cortês, porque eu sempre te amei no Senhor. Rogo ao grande Senhor que te criou, para que abrande um pouco o teu calor, para que queime com suavidade e eu possa agüentar”. Acabada a oração, fez o sinal da cruz e ficou esperando intrepidamente. Quando o médico segurou o ferro candente e em brasa, os frades fugiram por respeito, mas o santo se apresentou ao ferro alegre e sorridente. O instrumento penetrou crepitando na carne delicada e a cauterização se estendeu desde a orelha até o supercílio.

Toda a dor que aquele fogo causou testemunha as palavras do santo, que as sentiu melhor. Pois quando os frades, que tinham fugido, voltaram, o pai disse sorrindo: “Covardes e fracos de coração, por que fugistes? Na verdade eu vos digo que não senti nem o ardor do fogo nem dor alguma em minha carne”. E voltando-se para o médico: “Se a carne ainda não está bem cozida, aplica outra vez!” Percebendo a diferença daquele caso com outros semelhantes, o médico exaltou o milagre divino: “Eu vos digo, irmãos, que hoje vi uma coisa admirável”. Acho que tinha recuperado a inocência primitiva esse homem que amansava, quando queria, o que por si não é manso…

Para louvor de Nosso Senhor Jesus Cristo Amém. (Continua na próxima edição – Programa
Francisco Instrumento da Paz). Paz e Bem.

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