Artigo
Fazer carnaval é difícil – ao menos aqui, no interior do Estado do Paraná, como é o caso da cidade de Jacarezinho, onde a Escola que presido – A Acadêmicos Capiau – resiste para manter viva uma tradição existente há mais de 60 anos.
Embora eu tenha consciência de que a produção de um desfile carnavalesco nas capitais também não seja uma realidade fácil, não podemos desconsiderar que, nas bandas de cá, a coisa se torna mais complicada. Isto porque não contamos com cotas de patrocínios televisivos, tecnologias adequadas e, ainda, com a remuneração de todos os trabalhadores da cultura envolvidos nesse processo.
O trabalho que a Capiau se propõe a fazer não é amador, e o desfile deste ano provou isso. Quem compareceu à Avenida Manoel Ribas pôde apreciar um grande espetáculo a céu aberto: figurinos bem-acabados, bateria rigorosamente cadenciada, grandes alegorias, samba-enredo de qualidade, além, é claro, das impecáveis apresentações dos casais de mestre-sala e porta-bandeira e da comissão de frente.
Tudo isso foi dirigido por autênticos amantes do carnaval que, ao longo de todo o processo, desempenharam um grande trabalho e, na reta final, foram levados à exaustão para entregar uma homenagem à altura da população negra dessa cidade. O desfile da Capiau em 2025 foi profissional, ainda que seus diretores não tenham recebido nada por esses trabalhos. Talvez seja por isso que, nos últimos vinte anos, cinco escolas de samba da cidade paralisaram suas atividades.
É preciso entender que a feitura do carnaval não é mera diversão. É trabalho sério, feito por profissionais igualmente sérios. Enquanto gestor dessa Escola de Samba, faço questão de ressaltar que um dos nossos trunfos neste ciclo foi a profissionalização de alguns processos criativos: artistas plásticos, figurinistas, serralheiros, coreógrafos e costureiras assumiram a execução de etapas fundamentais, e o resultado foi o que a população viu no domingo: um desfile impecável em muitos sentidos.
Estou certo de que a população de Jacarezinho e do Norte do Paraná aguarda ansiosamente pelo desfile da Capiau no ano que vem. A possibilidade de turistas virem à cidade para assistir a esse espetáculo é real, e o impacto na economia local é certo, já que nenhuma cidade da região conta com o privilégio de ter escolas de samba em atividade. Nem mesmo Londrina, que já foi um grande expoente dessa cultura.
Para tanto, investimentos serão necessários. O aporte financeiro e logístico realizado pela prefeitura local neste ano foi muito importante, mas agora precisamos nos articular em torno de uma política pública consistente. O apoio de algumas instituições, como a UENP, a Escola de Bailado de Ourinhos e os atuais patrocinadores, será fundamental para a manutenção não somente da Capiau, mas de todas as agremiações que, juntas, constituem esse patrimônio cultural imaterial que resiste no interior do Estado do Paraná.
Pautada na ética e na transparência, a Capiau se consolida como uma instituição de cultura que deseja contribuir com o desenvolvimento cultural, social e econômico da região. Por isso, defendo que o carnaval de Jacarezinho seja reconhecido como um ativo cultural e econômico do município, com políticas públicas arrojadas que garantam sua continuidade e fortalecimento. Discutir a profissionalização da feitura do carnaval é uma necessidade de primeira hora, e estamos prontos e abertos para esse debate.
Por James Rios
Doutorando em Literatura (UEL)
Presidente do GRECES Acdêmicos Capiau