Paz e Bem, meu amigo e irmão, vamos falar sobre o bem-aventurado Francisco.
Primeiro Livro de sua conversão, de Tomás de Celano.
Sobre a clareza do santo e a nossa ignorância.
Guerras e revoluções se espalharam por toda parte, e de uma hora para outra, muitos reinos foram invadidos por calamidades mortais. Uma fome atroz se estendeu em todas as direções, e sua crueldade, superando todos os males, acabou com muita gente. A necessidade transformou tudo em alimento, e os homens puseram nos dentes o que nem os animais costumam comer. Chegaram a fazer pães com cascas de nozes e de árvores. Para falarmos um tanto veladamente, há testemunhas para confirmar que nem a morte de um filho chegou a comover um pai torturado pela fome.
Mas, para que fique bem certo quem era aquele servo fiel, por cujo amor a mão de Deus estava suspendendo a vingança, o bem-aventurado pai Francisco, poucos dias depois de sua morte, apareceu ao frade a quem tinha predito a desgraça e afirmou claramente que era ele aquele servo do Senhor. Certa noite, estando o frade a dormir, chamou-o com voz clara e disse: “Irmão, já chegou a fome que Deus não permitiu que viesse sobre a terra enquanto eu estava vivo”. Acordado pela voz, o frade contou depois tudo por ordem. Mas na terceira noite depois disso o santo apareceu de novo e repetiu palavras semelhantes. Ninguém deve estranhar que o profeta de nosso tempo gozasse de tais privilégios.
Pois livre da escuridão das coisas terrenas, não submisso aos desejos da carne, sua inteligência voava livre para as alturas mais sublimes e penetrava na luz com pureza. Iluminado pelos resplendores da luz eterna a, tirava da Palavra eterna o que ressoava em suas palavras. Ai como é diferentes hoje! Envolvidos nas trevas, ignoramos até o necessário! Por que motivo crês, a não ser porque somos amigos da cerne e nos metemos no pó dos mundanos? Se elevássemos nossos corações para os céus junto com as mãos, se escolhêssemos suspender-nos nas coisas eternas, provavelmente ficaríamos sabendo o que ignoramos: Deus e nós mesmos.
Quem se revira na lama tem que ver lama; quem puser os olhos no céu não poderá deixar de ver as coisas celestiais. Posto neste vale de lágrimas, isto bem-aventurado pai desprezou as míseras riquezas dos filhos dos homens e, ambicionando a mais alta glória, dedicou-se com todo o seu coração à pobreza. Vendo que era familiar para o Filho de Deus e estava sendo desprezada por todo o orbe e, quis desposá-la com um amor eterno. Por isso, feito amante de sua beleza e querendo unir-se mais estreitamente a sua esposa, como se fossem dois em um só espírito, abandonou não só pai e mãe, mas também revirou tudo. Abraçou-a por isso em ternos abraços e não quis deixar de ser seu esposo nem por uma hora. Dizia a seus filhos que ela era o caminho da perfeição, o penhor e a garantia das riquezas eternas. Jamais houve alguém tão ambicioso de ouro quanto ele de pobreza, e nunca houve guarda mais cuidadoso de um tesouro do que ele o foi da pérola evangélica. …
Para louvor de Nosso Senhor Jesus Cristo Amém. (Continua na próxima edição – Programa
Francisco Instrumento da Paz). Paz e Bem.


