Paz e Bem, meu amigo e irmão, vamos falar sobre o bem-aventurado Francisco.
Primeiro Livro de sua conversão, de Tomás de Celano.
Como soube que alguém, que julgava santo, era um falso.
Os exemplos provam o que dizemos. Havia um frade que, a julgar pelas aparências, era insigne pelo comportamento de uma santidade exímia, embora muito singular. Estava sempre entregue à oração, observava um silêncio tão rigoroso que até se acostumara a confessar-se por gestos e não por palavras. Tinha grande entusiasmo pelas palavras da Sagrada Escritura e, quando as ouvia, sentia um admirável prazer. Todos achavam que era três vezes santo. Mas aconteceu que o santo pai foi a esse lugar, viu o frade, ouviu o santo. Enquanto todos o louvavam e elogiavam, ele comentou: “Deixai disso, irmãos, não me venhais louvar seu diabólico fingimento.
Saibais na verdade que isso é tentação do demônio e engano fraudulento. Tenho certeza, e o fato de não querer confessar-se é uma prova”. Os frades receberam isso com dureza, principalmente o vigário do santo. Perguntaram: “Mas como é possível haver engano em todos esses sinais de perfeição?” Disse-lhes o pai: “Aconselhai-o a confessar-se uma ou duas vezes por semana. Se não obedecer, sabereis que é verdade o que eu disse”.
O vigário chamou-o à parte e, depois de conversar familiarmente com ele, acabou mandando que se confessasse. Ele não quis saber. Pôs o dedo nos lábios, sacudiu a cabeça e deu a entender que não se confessaria de maneira alguma. Os frades emudeceram, com medo do escândalo do falso santo. Não muitos dias depois, ele saiu espontaneamente da religião, voltou para o mundo, retornou ao seu vômito.
Afinal, dobrando seus crimes, foi privado tanto da penitência como da vida. Precisamos tomar sempre muito cuidado com a singularidade, que não é mais do que um precipício atraente. Temos a experiência de tantas pessoas singulares, que pareciam estar subindo aos céus e se precipitaram no abismo. Também devemos considerar o valor da confissão bem feita, porque não só faz mas também mostra quem é santo. Coisa parecida aconteceu com outro frade, chamado Tomás de Espoleto.
Todos o tinham em boa conta e estavam certos de que era santo. O santo pai achava que ele era perverso, e sua apostasia afinal o comprovou. Não aguentou muito tempo, porque a virtude baseada na simulação não dura muito. Saiu da Ordem e morreu fora dela: agora já sabe o que fez. No tempo em que o exército cristão estava sitiando Damieta, lá estavam o santo de Deus e seus companheiros: desejosos do martírio, tinham atravessado o mar.
Ouvindo dizer que os nossos estavam se preparando para o dia da batalha, o santo ficou muito triste. Disse a seu companheiro: “O Senhor me revelou que, se houver um combate nesse dia, os cristãos não vão sair-se bem. Mas se eu disser isso, vão achar que estou louco; se me calar, minha consciência não vai me deixar em paz. Que te parece?” O companheiro respondeu: dizendo “Pai, seja para ti o mínimo ser julgado, pois não é agora que começarão a te achar doido. …


