
NONA PARTE
Walter de Oliveira*
Eis-nos de volta à listagem dos primeiros gestores e legisladores do município, quando, por um curto período de tempo, retomamos a nossa viagem no tempo e na história. Suspendemos o artigo passado quando falávamos de um grande sonho acalentado pelo prefeito eleito, Luiz Meneghel – a criação de uma faculdade de agronomia em Bandeirantes – e que para a concretização desse desiderato, Moacyr Castanho (prefeito que o antecedera) havia dado o primeiro passo, instituindo o Fundo Municipal de Ensino e a Fundação Educacional de Bandeirantes.
Tal afirmação (a do sonho acalentado por aquele lendário usineiro) soará natural para quem o conheceu, e também para os que ouviram seus familiares contar da sua forma de ser e agir, e até por ouvir testemunhos existentes por toda a região (e os há, a mancheias) da parte de engenheiros agrônomos graduados em Bandeirantes – como é o caso dos vários comentários sobre nosso “fragmentos” anterior. Todavia, não é de se esperar que quantos, de futuro, venham a ler a nossa história, se convençam do que se dizia, não obstante o desprendimento e altruísmo de Luiz Meneghel, tenham justificado o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, a lhe agraciar com a “Medalha Marechal Cândido Rondon”.
Embora tudo isso – e a própria tradição – confirmem a nossa afirmação de que a criação dessa faculdade (hoje integrada à UENP – Universidade Estadual do Norte do Paraná -, como “Campus Luiz Meneghel”) fosse um seu antigo sonho, permitimo-nos, com a vênia dos nossos leitores, contar uma nossa conversa com o Comendador Meneghel, no longínquo ano de 1960, quando éramos funcionário da sua usina, contratados que fomos diretamente por ele, e com quem tivemos a honra e o prazer de viajar muito e também de muito aprender. Estávamos em Piracicaba, havíamos terminado o jantar e ele, sentindo-se um pouco saudoso da sua terra natal, nos convidou a percorrermos algumas das suas ruas e logradouros. Éramos o motorista e os locais percorridos ele os indicava. Passamos por tantos lugares, dentre os quais o Largo da Matriz, as duas avenidas marginais do histórico Rio Piracicaba, e por último, deixamos a área central, e chegando a um lugar ocupado por edificações diferentes, ele pediu para estacionar; desceu do carro (era um Fusca – imaginem), tirou o chapéu Ramenzone e tornou a botá-lo na cabeça. Um pouco intrigados, também descemos do carro. Nada conhecendo daquela hoje bicentenária cidade, não havíamos atinado que estávamos estacionados defronte à ESALQ – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”. Após alguns minutos de silêncio, arriscamos um comentário, sobre o que nos viera à mente, e dissemos: – Escola importante esta, hem Comendador? Ao que ele, franca e simplesmente respondeu: – Vou fazer uma dessa lá. E ao dizer lá, ele se referia a Bandeirantes, de onde, no momento, estávamos a 390 quilômetros de distância. Passados oitos anos daquela afirmação de Luiz Meneghel, vamos encontrá-lo eleito prefeito da cidade pela segunda vez, onde ele escreveu, com as suas ações e feitos, a maior parte da história de sua vida, e onde jazem os seus restos mortais.
O que acabamos de narrar, como dito, representa tão somente um nosso testemunho de que a criação de uma faculdade de agronomia em Bandeirantes, era um projeto de há muito engendrado na mente de Luiz Meneghel. E tudo leva a crer que seu sonho foi gestado ou inspirado a partir da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, de Piracicaba quando, em um dos muitos canaviais, em 1914, junto de um seu tio, enxada em punho, o menino Luiz Meneghel, de 14 anos de idade, trabalhava na capinação da cana. Homem feito e já usineiro no Paraná, ele resolveu seguir o exemplo de seu lendário xará Luiz Vicente de Souza Queiroz, e criou em Bandeirantes, a primeira faculdade de agronomia do interior do estado do Paraná. Hoje, adiantamos apenas este detalhe histórico do surgimento da faculdade, e quanto ao passo a passo da sua criação, trataremos em capítulo próprio do nosso livro de resgate histórico, posto ter se tratado de uma disputa entre 4 municípios paranaenses, visando o mesmo objetivo: Ponta Grossa, Londrina, Apucarana e Bandeirantes. Será um bom capítulo da nossa história.
Voltando agora à campanha que elegeu Luiz Meneghel pela segunda vez prefeito, como dito, não obtendo o apoio que esperava dos dois últimos prefeitos que o antecederam, e que foram por ele apoiados (José Mário Junqueira e Moacyr Castanho), decidiu lançar-se candidato assim mesmo, tendo como vice-prefeito em sua chapa (um cargo até então inexistente na legislação eleitoral), a excelente figura do paraense de nascimento, mas bandeirantense de coração, Jamil Fares Midauar.
Podemos assegurar aos leitores que aquela disputa não foi apenas “mais uma eleição” a prefeito; foi, antes disso, foi uma “luta de pesos-pesados”. Imaginem uma campanha iniciada logo após a convenção e com duração de quase 90 dias. À época, a nossa zona rural era densamente habitada e o município chegou a contar com 55 mil habitantes, segundo levantamentos estatísticos.
Ao tempo da eleição anterior (a que elegeu Moacyr Castanho), vivíamos o pluripartidarismo; era como é hoje, uma “salada de siglas” partidárias. Porém, com o advento do movimento militar de 1964, os partidos “foram extintos” e estabeleceu-se o “bipartidarismo”: ARENA – Aliança Renovadora Nacional (partido governista) e MDB – Movimento Democrático Brasileiro (partido oposicionista). No entanto, existindo grupos antagônicos, mesmo entre os apoiadores do governo, os legisladores criaram o artifício da sublegenda, e foi assim, que no pleito de 1968, concorreram: Luiz Meneghel (vice, Jamil), José Mário Junqueira (vice, Francisco Teixeira Ribeiro) e Dino Veiga (vice, Issamu Matida), todos candidatos da ARENA, pelas sublegendas 1, 2 e 3, respectivamente. O MBD não lançou candidato naquele pleito, só vindo a fazê-lo nas eleições de 1976.
Continua.
* Walter de Oliveira, 92, articulista desta Folha, é bandeirantense, nascido em 1932