
SEXAGÉSIMA NONA PARTE
Walter de Oliveira*
Em nosso artigo da semana anterior encerramos a listagem dos pioneiros do povoado da estação e da cidade, nos anos de 1930/1950, quando os últimos registros foram os do pioneiro José de Souza Guerra (Juquinha Guerra).
Como lembrado diversas vezes, os pioneiros contemplados com um registro foram os que se dedicavam a atividades mais propriamente urbanas, salvo alguns poucos casos de atividades industriais com funcionamento na região rural (alguma venda de secos e molhados, olarias e máquinas de benefício de café). Os nossos leitores sabem que quase cem por cento dos pioneiros por nós listados, vieram de registros feitos no livro de Solano Medina, “O Município de Bandeirantes”, (1950). Afora os sobreditos registros, Medina traz também outros, vários e interessantes dados históricos, como por exemplo, a relação de todas as propriedades rurais situadas no município e os nomes dos seus respectivos donos.
Acontece, que se fôssemos listá-los todos, chegaríamos a um total de 550 – ou mais – proprietários rurais, e tendo uma única edição semanal deste jornal que nos prestigia cedendo-nos este espaço, levaríamos um tempo dos mais longos em tal descrição. E convenhamos ser isso algo impraticável, quando temos somente até o final do ano para entregar à nossa população o presente trabalho de resgate histórico. Assim sendo, entendemos que o melhor será manter a relação das primeiras propriedades rurais, como consta do livro de Medina, com o que, aqueles nomes estarão perenizados em nossa história, e assim já homenageados, embora não à altura dos seus méritos, posto haver sido (e continuar sendo) o setor rural o fator de apoio basilar da economia, não só do nosso município, como do país.
E é indispensável seja bem frisado, que esse colossal número de proprietários rurais já citados (mais de 550), se restringe ao “cabeça da família”. Ou seja, ao se ler o nome do pioneiro João Figueiredo (ou João Alagoano), por exemplo, será ele, esposa e filhos; o mesmo valerá para os pioneiros Pedro Bellan, Eugênio Macaco, Henrique Biggi e todos os integrantes daquela legião de heróis. E há ainda que se atentar para o fato de que entre essas cinco e poucas centenas de proprietários rurais, existiam vários que eram fazendeiros, e em cujas fazendas moravam legiões de colonos. Por exemplo, só na Fazenda Vera Cruz (décadas de 30/40), e só na colônia central, moravam 74 famílias, dentre as quais, a nossa; e muito mais que os desta fazenda, eram os colonos das fazendas Carvalhópolis e Nomura. Todavia, e visando a uma mais clara ideia do “cenário rural” da época, o nosso trabalho trará ilustrações as mais pertinentes.
Como primeiro passo, no sentido de adiantar aos nossos leitores detalhes interessantes sobre o nosso setor rural, quando da abertura e ocupação do município, lembramos que, conforme já dito, esse setor compreendia o fantástico número de mais de quinhentas propriedades. E com um detalhe importantíssimo: mais de três quartos do seu extrato fundiário (quarenta e três mil hectares – obviamente que descontada a área urbana), era (e ainda é) formado pelo chamado “minifúndio”. Para o leitor ter uma ideia do que dizemos, das 550 propriedades do município em 1950, trezentas delas tinham o tamanho entre um e dez alqueires paulistas; entre 100 e 200 alqueires, eram vinte e duas propriedades e apenas oito eram latifúndios; porém, todas altamente produtivas.
É bom que se diga, até para conhecimento e/ou avivamento de memória, do grande acerto que foi a negociação do governo com a Companhia Ferroviária Inglesa, depois sucedida pela Companhia de Terras Norte do Paraná, presidida pelo Major William Johnston. Com certeza se espelhando em alguma antiga colonização do Reino Unido, o referido major e dois outros ingleses não menos habilitados, Lord Lovat e Sir William Ogilvie, foram os “pais” da ideia de colonização pelo sistema de “minifúndios”. Foi por isso, e em razão disso (e também à fertilidade das terras da região), que o fenômeno econômico do norte do Paraná, se tornou mundialmente famoso.
Fechado o tópico relativo aos nossos pioneiros nos anos 1930/1950, vamos agora ao registro dos nomes a cuidado dos quais, foi entregue o destino de Bandeirantes. É mister aqui se faça um esclarecimento, para não restar dúvidas do porque, entre o ano da criação do município (1934) e 1947, só aparecerem nomes de prefeitos (e em profusão: nove prefeitos) e nenhum vereador. A resposta está na própria história brasileira, eis que vivíamos no período da ditadura Vargas (1930/1945), quinze anos de jejum eleitoral, menos o “respiro” que abaixo relatamos.
Foi no ano de 1935, no dia 12 de setembro (decorridos cinco anos da ditadura), que a democracia paranaense estava em clima de festa e se realizaram, em todo o estado, eleições para prefeitos e vereadores. E se até aqui, o nosso trabalho realçou o “pioneirismo”, seria um despropósito não o fazer no tocante àqueles que têm sobre seus ombros a responsabilidade de dirigir os destinos do município.
Quanto ao prefeito pioneiro, é público e notório, que foi o engenheiro civil Raphael Antonacci, do qual fica como referência, apenas o registro do seu nome, e que ele era da cidade de Cambará, e sob cuja vigência de mandato aconteceram as eleições de 12 de setembro de 1935. Um município recém-instalado e pertencente à comarca de Jacarezinho (sede da 26ª Zona Eleitoral), Bandeirantes contava com dois partidos políticos: Partido M. de Bandeirantes (cujo “M” podia ser de “municipalista” ou de “Moderador”) e Partido Social Democrático. Sobre quais candidatos concorriam não há informações, mas foram eleitos:

PREFEITO MUNICIPAL PIONEIRO: Eurípedes Mesquita Rodrigues, pelo Partido M. de Bandeirantes.
CÂMARA MUNICIPAL PIONEIRA: Pelo Partido M. de Bandeirantes – Vereadores: Hamilton de Oliveira, Vicente Garcia de Andrade e Otacílio Fortes (que não tomou posse e renunciou ao mandato); Suplentes: Arsênio Ferreira, João Reghin (Cornélio Procópio) e Genuíno do Nascimento. Pelo Partido Social Democrático – Vereadores: Gilberto Freire, Raphael Antonacci (Cambará) e Asdrúbal de Figueiredo; Suplentes: Alberto de Campos Gatti, Augusto Siccoli e Jayme Carvalho de Oliveira.
Continua.
* Walter de Oliveira, 92, articulista desta Folha, é bandeirantense, nascido em 1932.