Às vezes ficamos presos às nossas faltas e ficamos cegos para a abundância que a vida nos entrega.

Às vezes ficamos presos às nossas faltas, como se a vida fosse apenas um inventário de ausências. Olhamos para o que não temos, para o que nos escapou, para o que não se encaixa nos nossos planos, e vamos colecionando carências como se fossem medalhas de uma guerra silenciosa contra nós mesmos.
Nessa fixação, nos tornamos cegos para o que está diante de nós: a abundância cotidiana que insiste em se oferecer, mas que não reconhecemos porque não vem embrulhada no formato exato de nossos desejos. É como alguém que reclama da escuridão enquanto segura uma vela acesa na mão, sem perceber sua própria luz.

O problema não é a falta, mas a forma como a tornamos lente única de visão. Quem só enxerga o vazio nunca percebe a mesa posta, o afeto disponível, os instantes de paz, a respiração que se renova, o simples milagre de estar vivo.
A vida não se mede apenas pelo que conquistamos ou perdemos, mas pela capacidade de reconhecer o que já existe. Talvez a verdadeira abundância não esteja em acumular, mas em aprender a ver.

 

Imagem-de-Stefano-Ferrario-por-Pixabay

Quando ficamos presos às nossas faltas, alimentamos uma espécie de miopia existencial. Passamos a enxergar só o que não temos, como se a vida fosse uma eterna dívida que nunca conseguimos quitar. É nesse estado que nasce a comparação, a inveja, a sensação de escassez — não porque realmente falta, mas porque treinamos o olhar para ver apenas o buraco e nunca o chão que nos sustenta.
A obsessão pela falta é um vício disfarçado de “busca por mais”. É o combustível de um sistema que quer pessoas insatisfeitas, sempre correndo atrás da próxima meta, do próximo objeto, da próxima promessa de felicidade. O resultado? Gente cansada, ressentida e cega para a abundância silenciosa que já habita cada dia.
A vida não nos deve nada. Somos nós que insistimos em transformá-la em um tribunal de cobranças. Enquanto isso, os pequenos milagres — que não cabem em números nem em vitrines — passam despercebidos.

O crítico não é a falta em si, mas o apego a ela. Quem só se define pelo que lhe falta nunca percebe o que já o sustenta. E talvez essa seja a maior pobreza: a incapacidade de reconhecer o que já é.
A verdadeira miséria não está naquilo que não temos, mas na cegueira diante do que já nos foi dado. Enquanto seguimos enumerando ausências, a vida segue oferecendo presenças que ignoramos. O que nos falta, na maioria das vezes, não é mais dinheiro, tempo ou conquistas — é consciência. Quem aprende a enxergar a abundância que já existe descobre que nunca esteve vazio; apenas estava distraído.

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