Eu criei todos os meus filhos da mesma forma…

A verdade é que há uma ilusão nessa afirmação que só se revela no silêncio dos dias e nos traços inesperados de cada personalidade. A ilusão reside na crença de que existe um modelo único de amor, um caminho uniforme que possa moldar vidas distintas como se fossem peças de um mesmo molde.


Cada filho nasce com seu próprio ritmo, suas imperfeições e talentos, e por mais que tentemos aplicar regras, rotinas e valores de forma homogênea, a singularidade de cada um sempre encontra formas para se manifestar. O que criei não foi a mesma pessoa, mas talvez dei a mesma intenção: amor, proteção, orientação. Ainda assim, o resultado nunca será replicável.
Reconhecer essa ilusão é, talvez, um dos passos mais libertadores da paternidade ou maternidade. Permite ver que cada gesto de cuidado pode florescer de formas imprevisíveis, e que cada diferença não é desobediência, mas expressão do que nunca poderia ser controlado.

No fim, perceber que a igualdade na criação é apenas uma fantasia, nos lembra de respeitar a individualidade, aceitar o inesperado e amar, acima de tudo, sem expectativas de uniformidade.
Gabor Maté nos lembra que não existe criação neutra; cada gesto, cada expectativa, cada tentativa de moldar é recebido por uma mente em desenvolvimento, muitas vezes já marcada por nossas próprias feridas invisíveis. Pensar que posso reproduzir o mesmo cuidado, aplicar as mesmas regras e esperar resultados semelhantes é ignorar que cada criança reage ao mundo de acordo com suas necessidades emocionais e lacunas afetivas. O que pode ter funcionado para um, pode ferir outro; o que ofereci como amor incondicional, pode ter sido interpretado como ausência, crítica ou pressão.


A ilusão está em acreditar que a uniformidade na criação garante igualdade no desenvolvimento. A verdade, segundo Maté, é que nossos filhos refletem não só nossas intenções, mas também nossos traumas não resolvidos, nossas ansiedades e expectativas. Criar é, portanto, uma dança delicada entre oferecer orientação e reconhecer a singularidade emocional de cada um. Aceitar essa verdade é libertador: nos obriga a olhar para dentro, a compreender nossas próprias dores e, a partir disso, oferecer presença genuína, escuta atenta e empatia profunda. Criar filhos não é replicar um padrão; é aprender a amar sem tentativa de controle, abraçando cada diferença como expressão daquilo que não pode ser moldado.

E somos pessoas diferentes a cada filho que nasce.
Com o primeiro, geralmente somos inexperientes, cheios de expectativas, medos, inseguranças. Por outro lado, a atenção pode ser total para a criança. Já com o segundo, a atenção precisa ser dividida, há mais afazeres, somos mais experientes e isso tudo faz com que lidemos com ele de forma bem diferente do primeiro. E assim as mudanças vão acontecendo e nós vamos nos tornando pais diferentes.

No final, entender que cada filho é único e cada criação é imperfeita é a chave para quebrar a ilusão da uniformidade e cultivar relações verdadeiramente saudáveis e conectadas.

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